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No dia 26 de março de 1987, a cena urbana nacional perdeu Alex Vallauri, artista singular, reconhecido pelo seu ímpeto criativo e expressões inovadoras. Como ressalta o artista plástico Celso Gitahy, no livro Graffiti em SP, além de se expressar quase que isoladamente pelos muros e paredes do país, Alex conquistou lugar de destaque em importantes mostras e bienais internacionais e, sobretudo, entre artistas que atravessavam cotidianamente, desde então, a cidade, com suas obras espalhadas pelas paredes cinzas da metrópole.

Assim, ainda na madrugada posterior a sua morte, já no dia 27 – número da sorte de Alex, como revela Gitahy – foram muitos os admiradores e novos artistas, influenciados e, muitas vezes, incentivados por Vallauri que invadiram o ‘buraco da Paulista’ com cores e imagens, prestando a devida homenagem a um dos ícones da arte urbana contemporânea no Brasil.

A partir desse dia, nos anos seguintes, às margens da instituição, os grafiteiros e grafiteiras elegeram Vallauri como referência e assim o Dia do Graffiti foi instituído: primeiro nas ruas e depois pelo governo, por meio da Lei Municipal nº 13903/2004.

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Homenageada 2017: Meduza

Sob a égide de medusa

A edição 2017 do Dia do Graffiti homenageia Meduza (Renata Santos), grafiteira de Sapopemba que há mais de 20 anos se dedica à arte de rua nas periferias da Cidade de São Paulo, ora espalhando o colorido do graffiti, ora mandando um recado contundente no pixo. Por isso ela se identifica com o “grapixo”. Mulher aguerrida e engajada, teve no Hip Hop seu berço. Antes de manejar o spray ela foi B Girl e integrava a Posse DRR – Defensores do Ritmo de Rua. Era década de 1990, um tempo em que a periferia era “estresse concentrado, um coração ferido por metro quadrado”¹.

Renata Santos fez faculdade numa época em que não havia Próuni, FIES e tampouco universidade federal pública na quebrada. Formou-se pedagoga e atuou como educadora em projetos sociais voltados à defesa dos direitos da criança e do adolescente. Foi integrante do extinto Cedeca Casa 10, do Ipiranga, reduto de militantes do hip hop. Fez história por lá. Enveredou pela arte de rua, mas, não se considera artista, prefere ser reconhecida como arteira assumindo tanto o sentido de que é fazedora de arte, quanto o lado maroto do termo.

Meduza, apesar de seu protagonismo é uma mulher discreta e hábil mediadora de conflitos. Ela sabe o peso da responsabilidade que tem. Está cumprindo seu segundo mandato como conselheira tutelar. Já são cinco anos de atuação institucional na defesa do Estatuto da Criança e do Adolescente numa região marcada pela violência onde a juventude negra está sempre no alvo dos que matam. Renata é séria, mas, não carrancuda. Adora samba e integra torcida organizada de um time de várzea de sua região.

Ao adotar a alcunha de Meduza, Renata expressa sua identificação com o conhecido mito grego da mulher misteriosa que ostenta serpentes na cabeça. Entretanto, ela usa a grafia com Z para dar uma identidade própria. Segundo uma famosa narrativa, Medusa teve seus lindos cabelos transformados em serpentes num ato de vingança de Atena que se sentiu traída, pois, ela teria se deitado com Poseidon, rei dos mares, no templo sagrado. A formosa jovem, porém, empoderou-se, como se diz nos dias de hoje, e revelou sua ira fazendo bom uso dos animais peçonhentos que lhe serviam de peruca. Perseguida antes de sua morte, espalhou pânico entre seus algozes, transformando-os em pedra com a força de seu olhar. Assim protegeu, o quanto pôde, sua cabeça da decaptação decretada por um monarca cruel. Coube a Perseu, um semi-deus, o feito de matá-la.

Meduza, com Z, se sente também perseguida e injustiçada. “Tem sempre um querendo arrancar minha cabeça”, diz ela. No final do Século XX, as feministas deram um novo significado para o mito de Medusa, atribuindo-lhe as virtudes da independência, da liberdade sexual, da resistência e da ira feminina. A própria Atena reconheceu sua força ao esculpir a face dela em seu escudo. Medusa, em grego, quer dizer “guardiã”. Escudo é “aegis”, que no português virou “égide”.

Estamos, portanto, diante de um belíssimo mito que engrandece a mulher independente, altiva e guerreira, senhora de seu corpo e de sua sexualidade. Frente ao conservadorismo misógino que nos assola, o mito da mulher com cabeleira de serpente é muito bem-vindo. Nesses tempos em que o feminismo volta a ser uma força política central, esse mito é uma grande inspiração. Meduza, a grapixadora, vive sob a égide da Medusa grega que lhe protege como uma guardiã. Tirar a lata de spray de suas mãos equivale a cortar-lhe a cabeça. Tenta sorte Perseu….

¹V.L. (parte II) – Racionais MC’s, 2002.

Por Eleilson Leite, coordenador da área de cultura da Ação Educativa

Fotos: Melissa Gonçalves

 

 

 

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